A fragilidade financeira das famílias brasileiras piorou no segundo trimestre de 2026 em 22 das 27 unidades da federação, segundo o Índice de Vulnerabilidade Financeira Familiar (IVF) do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste da FGV Ibre. Embora o avanço nacional tenha sido moderado — 1,01% na média —, a deterioração foi ampla e atingiu cerca de 81% dos estados e do Distrito Federal.
O resultado indica que o problema não está concentrado em poucas regiões. A principal pressão sobre os orçamentos domésticos veio da inadimplência, que respondeu por 77% da alta da média nacional e subiu em 23 das 27 unidades da federação.
O que o índice mede
O IVF é um indicador multidimensional, calculado trimestralmente para todas as unidades da federação, que combina dados públicos do Banco Central — por meio do Sistema de Informações de Crédito e da Estatística Bancária — com informações da PNAD Contínua, do IBGE.
O índice varia de 0 a 1: quanto maior o valor, maior a vulnerabilidade financeira das famílias. Ele considera seis dimensões: inadimplência, endividamento relativo, pressão de curto prazo, custo do crédito, capacidade de absorção de choques e fragilidade do mercado de trabalho.
| Dimensão | Peso no índice | O que avalia |
|---|---|---|
| Inadimplência | 25% | Dívidas em atraso em relação à carteira de crédito livre da pessoa física. |
| Endividamento relativo | 15% | Volume da dívida em comparação com a massa salarial local. |
| Pressão de curto prazo | 15% | Parcela das dívidas com vencimento em até 90 dias. |
| Custo do crédito | 15% | Uso de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem consignação. |
| Capacidade de absorção de choques | 15% | Poupança disponível como reserva para imprevistos. |
| Fragilidade do mercado de trabalho | 15% | Desemprego, informalidade e rendimento médio real. |
Deterioração generalizada
Entre o primeiro e o segundo trimestres de 2026, a média nacional do IVF passou de 0,4331 para 0,4372, alta de 1,01%. O aumento foi pequeno em termos percentuais, mas a abrangência do movimento é o principal alerta: 22 unidades da federação registraram piora.
Apenas cinco UFs apresentaram queda no índice: Mato Grosso, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraíba e Amazonas. Mato Grosso teve a maior melhora, com queda de 2,53%; Santa Catarina recuou 1,70%; Rio Grande do Sul, 1,09%; Paraíba, 1,04%; e Amazonas, 0,21%.
A inadimplência foi o vetor central da deterioração. Além de explicar 77% da alta da média nacional, ela subiu em 23 unidades da federação. A pressão de curto prazo — que mede quanto da carteira de crédito vence em até 90 dias — também contribuiu para o resultado, representando 32% do aumento.
Maranhão lidera fragilidade
O Maranhão permaneceu como a unidade da federação com a maior vulnerabilidade financeira do país. O estado também registrou alta de 2,26% no período, com a piora concentrada na inadimplência e na capacidade efetiva de pagamento das famílias.
Tocantins e Rondônia seguiram entre os estados mais vulneráveis. No segundo trimestre, os três maiores índices continuaram sendo os do Maranhão, Tocantins e Rondônia, reforçando a persistência de desigualdades regionais no acesso à renda, ao crédito e à proteção financeira.
No extremo oposto, o Distrito Federal manteve o menor nível de vulnerabilidade do país. Ainda assim, o indicador local subiu 5,89% — a maior alta percentual do período —, impulsionado por endividamento relativo, fragilidade do mercado de trabalho e redução da capacidade de absorção de choques.
Mato Grosso melhora, mas segue exposto
Mato Grosso foi o destaque positivo: a queda de 2,53% no IVF fez o estado avançar seis posições no ranking, saindo da quarta para a décima posição entre os mais vulneráveis. A melhora veio principalmente da redução do endividamento relativo, ou seja, do peso da dívida em relação à renda gerada no estado.
Segundo o economista Flávio Ataliba, um dos responsáveis pelo índice, o perfil de Mato Grosso é típico de economias ligadas ao agronegócio. O custo do crédito e o mercado de trabalho estão entre os melhores do país, mas o endividamento relativo ainda é o mais alto do Brasil — o que mantém o estado sensível a choques e a oscilações de renda.
O pesquisador também observou que estados com forte atividade agrícola tendem a apresentar inadimplência mais elevada. Em julho, a inadimplência do crédito rural chegou a 8,8%, recorde da série histórica.
Dívidas antigas pesam mais
A leitura central do estudo é que o desafio das famílias brasileiras deixou de estar principalmente na contração de novas dívidas e passou a estar no pagamento das obrigações já assumidas. “O problema das famílias hoje não é tanto contrair novas dívidas, mas conseguir pagar as que já têm”, afirmou Ataliba.
Isso ajuda a explicar por que a inadimplência pesa tanto no índice. Quando parte relevante da carteira entra em atraso, o orçamento doméstico fica mais pressionado e a capacidade de consumo, de poupança e de enfrentamento de imprevistos diminui.
Em estados do Nordeste e no Rio de Janeiro, a vulnerabilidade está mais associada ao custo do crédito — especialmente cartão, cheque especial e crédito pessoal — e à fragilidade do mercado de trabalho.
Os autores do estudo defendem que não há uma solução única para o problema, pois as causas da vulnerabilidade variam entre as regiões. Em estados do agronegócio, a agenda inclui gestão de riscos e renegociação do crédito rural; no Nordeste, educação financeira, substituição de dívidas caras por linhas mais baratas e proteção da renda dos trabalhadores informais.
A principal contribuição do painel é criar uma base para acompanhar, de forma comparável, onde a vulnerabilidade é maior e em que direção ela está mudando.







